sábado, 17 de dezembro de 2011

Fragmento I

 "Each person who ever was or is or will be has a song. It isn’t a song that anybody else wrote. It has its own melody, it has its own words. Very few people get to sing their own song. Most of us fear that we cannot do it justice with our voices, or that our words are too foolish or too honest, or too odd. So people live their songs instead."
- Neil Gaiman, Anansi Boys

Equilíbrio

Tão pouco tempo, tão vasto mundo
Semana, hora, segundo
O chamuscar de um cigarro,
Um gole, um trago,
Cem cotações por minuto
O pulso convulso, o espelho
O discurso, a prece em joelhos
Um beijo, a brisa noturna
Um rosto, a infância perdida
Superfícies cortantes, esguias
Superhomens nas telas vazias
Supernovas já velhas, deitadas
Superações em queda, mais nada...

E se no fim de tudo fenece o peito,
O Universo ainda respira
A Terra brinca com Hélio
A luz não se atrasa um dia
Tudo mantém seu mistério
Os versos selvagens debandam
Fogem do corpo 
Fogem da alma 
Fogem da mente 
Retornam a suas origens
Fertilizam todo o espaço
E não mais são tinta, sílabas, fonemas
São finas cordas, abraçadas em teia
Entre átomos, moléculas, cadeias
São estrofes e não as são, em dança plena
São a vida num instante e no outro um poema.

domingo, 13 de novembro de 2011

Aflorar

O salitre volátil entre veias
Perfuma, o corpo, a história
Invade poros, porões, pormenores
Dispara a mente em certeza
O peito explode em vontade
E esse vai e vem encrispante,
Ondas num mar de suspiros.

Hálito quente na noite gelada
Hausto profundo a cada arfada
Os olhos vazios, perolados no espaço
Os astros febris, a pele em farrapos
Tudo num único ponto
Um único ponto em tudo
Nada mais é.

Curva de possibilidades,
Curva do ser em meus dedos
Curvados no ser de minha alma.
Dois já não mais se completam
Pois já não existem no espaço
Só o momento persiste, fraqueja, instável.

E tudo mais foi.
Num contrair de pálpebras
Num toque, leve, denso, profundo
Num olhar tão breve e selante
No giro profano do mundo...

sábado, 12 de novembro de 2011

Conclave

Não mais deveis cantar o velho hino
De uma bandeira rota e maculada
Não mais deveis curvar-vos ao destino
Em prece, em prantos, de mãos atadas.

Cortai as grossas vendas sussurrantes
Nos gritos que laceram vossa calma
Clamai por Orwell, Tolstói, Dantès
Adormecidos na omissão de cada alma.

E quando o baladar do novo sino
A sina vos trazeis em vã arfada
Erguei irmãos meus, nos dedos finos
A liberdade, sanguínea, assinalada.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Serpente

Entre as tortuosas curvas da mente,
Nos sibilos hostis de teu canto
Senti em meu peito o encanto
Do sinuoso olhar da serpente.

E na lascívia bífida, estridente
No olhar fendado, vestido de santo
Pungiu-me em seu bote inteiro e tanto
Que minh'alma banhou em peçonha ardente.

Cingiu-me num último aperto escamoso
E em meio ao torpor, no doce luar
Soltou-me veloz entre o choro e o gozo.

Lágrima a lágrima secou-se o pesar
Descamando o corpo de um trapo trevoso,
(Re)Vestindo a carne na pele do amar.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Anura

And then it swept across the leaves
Leaving behind everything that once was
Impulse by impulse the tips seize
What croack by croack stands far.

Beneath the tears of the raining trees
Begins to fade the lonely call
Both legs and bones are dried seas
Crack by crack it jump and falls.

And when seconds become hours
And hope weights as a heavy burden
Then, in the haze, all of a sudden
Flashes the lady dressed in flowers

And out of the croacking hashes
Sprouts, from depth, a clasp of desire
An harmony of heart and fire
A drop of life which slowly hatches.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Caudata

Salamandras malandras
Em suas piscinas
Afogam o fogo,
Afagam o ar
Com suas narinas.
Nas línguas minguantes, no tempo perdido
Morosas repousam, respiram
Guaram segredos consigo.
São brasas molhadas
Sonhos, delírios
A chama dos círios
A cor dos desejos
E são salamandras
Salamandras malandras.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Tudo

Já parou pra pensar?
Em cada gota,
Em cada palavra,
Em cada piscar,
Em tudo.

Na lavoura do tempo,
Onde se planta o desejo
Na terra da carne, 
Onde se finca o resto
Na copa da alma,
Onde frutificam os Verbos (os mais suculentos).

E em cada momento um encontro
Em cada motivo um sentido, obscuros sentidos,
Em cada palavra um sopro.

Nas linhas tortas da pauta
A melodia do mundo
Um concerto torto
Um anjo morto
A veia que salta.

A leveza do toque,
A sinestesia aveludada
A alma em revés
A poesia de mãos dadas
Com tudo que é.

E se é já se foi
E se foi não se perde,
Pois no manto da vida
Os retalhos são feitos do ser.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Solo

Sinalizaram, gentilmente, que passasse,
Passei...

Sussurraram, delicados, que entortasse,
Entortei...

Pediram, cínicos, que me calasse
E na primeira pessoa da alma,
Me calei.

E no silêncio envolvente
Passou o presente
E ninguém ouviu.

Morro ontem, nasço hoje
Envolto em farrapos
Mas com os próprios passos

Que me levam longe.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Verbo a(o) mar

Tantos braços, tantas bocas
Tanta força num olhar
Tanto nasce de tão poucas
Palavras no amar.

E se lavras nesse mar
A semente de teu peito
Abres um estreito,
Pôe-se a alma à navegar.

Mas se o braço faz-se rijo
E a boca faz-se quieta
O peito esconderijo
As pupilas em alerta
Fica o porto, foge o mar.

Na ciranda de tua mente
É posto a dor que sentes
Na ânsia do querer
No açoite do olhar
Sublimas pela noite
Nas ondas a girar. 

Cada arco hesitante
Retorna ao pobre amante
O corpo, a alma, o ar
E nas cinzas de teu tempo
Da mágoa fazes templo
No tempo de  amar.  

sexta-feira, 11 de março de 2011

Entropia Pública

O caminhar dos ponteiros
Pés frenéticos sob o Sol
O Astro escaldante.
O suor dançante na face
Cada qual em seu disfarce
Todos contra o tempo.

Os olhos convulsos
As testas tesas
Uma esperança na esquina
A carroagem coletiva
Um ponto, mil pontos, borrões
Os corpos no tempo, um espaço.

Uma amálgama viva
Um turbilhão de membros
O motor e seus pigarros
Nuvens de diesel, cigarros
Um solavanco
O abraço da inércia.

Uma reta no asfalto, três casas
Um suspiro
Uma resposta
O tanger de olhares
Uma curva de improbabilidade
Um encontro.

Dois pulsos descompassados
Uma golfada de ar
O abrir das bocas
O disparar dos ponteiros
A relatividade de Einstein.
Um solavanco

Ponto final.

Reticências...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Sunao

Sede flexível como o bambu
Que do raso solo faz-se hirto
Que se curva entregue ao vento,
Mas que íntegro persiste a cada movimento.

Sede recipiente como o bambu
Que faz do seu cerne vazio
Que da essência torna-se dreno,
Mas que nunca em sua sede faz-se pleno.

Sede sereno como o bambu
Que se entrega ao frio e ao vento
Que se abre eternamente à natureza,
Mas que floresce no tempo com leveza

Sede astuto como O Homem
Que faz-se reflexo do bambu
Que sente a harmonia inerente,
Mas que a todo momento faz-se gente.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Soneto Plástico

Afastam-se lábios num leve encrispar
A vida condensada num instante
O corpo encerra uma alma flutuante
Nada mais é digno, apenas o estar.

E nesse frênesi volátil do amar
A vil tristeza, outrora triunfante
Descama sob a fúria de um gigante
Com suas cinzas multicolor a pairar.

Mas acorda lentamente o ponteiro
Liquefaz gota a gota a fantasia
Afoga-se um sorriso derradeiro.

Num segundo jaz tudo o que luzia
Noutro tudo que jazia põe-se inteiro
(Des)construção, tinta da poesia.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Soneto Pluriversal

"A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos."
Poema de Sete Faces, Carlos Drummond de Andrade

Nos olhos reluzem sonhos dispersos,
Nas pupilas o infinito se encerra
E brinca sozinha a ínfima Terra
E gira e corre e desdobram-se os versos.

Na mente flutuam mil universos
Aos poucos a alma, volátil, desterra
E são pontos a dor, o riso, a guerra
Em vivas centelhas o mundo é imerso.

Ilude-se o homem pensando ser astro
Fosco, sem vida, da sombra é reflexo
Navega sem rumo, falta-lhe o mastro.

À luz do moderno escurece o amplexo
Extinguem-se estrelas sem deixar rastros
Esvai-se o homem no vão do complexo.

Versinhos Transgênicos

Pentoses carentes entram na dança
Rodam e giram a se entrelaçar
E forma-se a helix que nunca se cansa
E de simples abraços nasce o DNA.

PS: Essa foi só pra quebrar o clima (quebrou a pauladas).

Marulho

Ao caminhar sob a areia escaldante
Sentindo a espuma tocar minha mente
Torno-me pluma, um anjo torto
Sublimo gasoso na maresia
Cada passada me aproxima do fim.

Por mais que toque os rochedos
Jamais chego ao fim de mim mesmo
Arrasto-me no tempo da memória
Assombro a noite vazia, retorno
Cada suspiro me afasta do mundo.

Por mais que me agarre aos castelos
A solidez dissolve-se em meus dedos
Ou meus dedos dissolvem-se nela
A lua atrai o meu ser
Cada olhar me afasta dos céus.

Por mais que semeie o solo da vida
Jamais desfruto de sua beleza
Cada gota esvai-se em sua sede
Só resta o sal de minha alma
Cada lágrima me afasta de Deus.

Por mais que implore clemência
As linhas estão sempre tortas
Se ao menos houvesse o ponto final...
A maré varre as palavra, espalha
Cada onda traz minha tormenta, retorno.

Seria cada um de nós tão profundo, tão imenso
E ao mesmo tempo tão delimitado, vazio
Quanto um oceano?

domingo, 6 de fevereiro de 2011

A Perda

Ao partir na noite perdida
Levou consigo somente a saudade
Despiu-se do tempo, da tenra idade
No amplexo do cosmos pôs-se vestida.

Um caminho perolado no espaço
Os olhos nos passos tristes
E tu, cego, ainda insistes
Que iludo-me na busca que faço.

Nunca mais senti seu choro
Mas seu afago, sutil, sinto no céu
Além do tempo, atrás do véu
A dor e o riso, a vida em coro.

Ironia

O sorriso que esboça o peito
Entre a multidão alienada
Guarda um rosto imperfeito
O tudo, por dentro o nada.

O toque, o pefume, a noite
Um drink, dois blocos de gelo
Passo por passo, um açoite
Sinto, mas não posso vê-lo.

Quem dizer poderia
Que aquele vão fragmento
Minh'alma toda despira
Num tão singelo momento.

E com os farrapos restantes
Escondi-me de mim, lá no fundo
Talvez fosse assim mesmo antes
Talvez seja assim todo o Mundo.

Cada transeunte que passa
Têm uma lasca faltante
Mas há tanto à mentira se enlaça
Que jamais se enxerga farsante.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Versinhos da Madrugada

Soa sereno o ocaso
Ausento-me em mim
Delego, atraso
Num fluxo sem fim.

O vento é morto
Dentro da toca
O olho, absorto
A mente provoca

E o tempo urge
Em vã galopada
E meu peito ruge
Pela madrugada .