De todas as palavras lavradas na terra,
As mais instigantes são as que não brotam.
No fundo, por mais que não floresçam belas e vistosas, são como uma primavera em nosso peito
(E ao mesmo tempo sorrateiras, como os dedos do mais gélido inverno)
Seu destino é incerto, seu tempo variável, sua essência uma dúvida.
A ausência é a poesia mais perfeita da alma,
É a sua inquietação, seu indulto
Seus versos brancos no sentido mais literal,
e livres.
É a corda muda que vibra e toca.
Seu corpo (des)faz-se nas pausas da melodia,
No vácuo mordaz que se enclausura no peito,
Nos tiques nervosos dos pés,
Nos suspiros, estalos de língua, olhares perdidos...
Está em todo canto, mesmo não estando em lugar algum.
É linda, mas talvez só o seja porque é parte:
Como a sombra do som no anteparo da vida.
E o todo é ainda mais lindo,
Como a vida no anteparo do mundo...
E, no fim, na dúvida, só nos resta, novamente, o silêncio
Ainda sim, melhor o silêncio do que os pontos,
Detesto os pontos, são previsíveis, têm um fim em si mesmos.
Mas e as reticências, oblíquas e dissimuladas?
...
Inópia: s.f. Penúria, indigência, escassez; Fig. Defeito, falta. Este blog é apenas mais um no qual o autor estrutura seus pensamentos para o mundo em busca da própria estruturação. De quebra, espera-se que seja uma ajuda mútua e que, de alguma forma, seu conteúdo seja mais um ingrediente a integrar o complexo caldo da mente humana.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
Corredor
O corredor é longo,
Os passos silenciosos,
As portas infinitas...
Pra que tanta porta, meu Deus?
Em cada maçaneta uma síncope mental.
Um milhão de caminhos,
Uma escolha fratricida
Sou eu ou é o mundo?
Em cada ato, uma causa,
Em cada causa, efeito
Em todo (per)feito, defeito
E o efeito sem causa?
-Permite-me entrar?
-Claro, você quem manda chapa.
Todas as portas estão abertas,
Resta-me apenas fechá-las.
Hesitação dos infernos,
Fecham-se os corpos, as cortinas, os olhos, as portas.
Entrei...
Os passos silenciosos,
As portas infinitas...
Pra que tanta porta, meu Deus?
Em cada maçaneta uma síncope mental.
Um milhão de caminhos,
Uma escolha fratricida
Sou eu ou é o mundo?
Em cada ato, uma causa,
Em cada causa, efeito
Em todo (per)feito, defeito
E o efeito sem causa?
-Permite-me entrar?
-Claro, você quem manda chapa.
Todas as portas estão abertas,
Resta-me apenas fechá-las.
Hesitação dos infernos,
Fecham-se os corpos, as cortinas, os olhos, as portas.
Entrei...
terça-feira, 17 de abril de 2012
Speckle
Naquela beirada da vista,
Maliciosa e malquista,
Um pequeno cisto surgiu.
E cresceu, eriçou-se, coçou
E coçou tanto e tanto,
Forçou nos olhos o pranto
Como quem fica e não se presta a passar.
Pôs-se, então, ferrenho a vagar
Por todo domínio existente.
Uma praga sem precedente.
Rachou as feridas,
Entupiu as narinas,
Secou a garganta,
E a sede foi tanta
Que toda bebida reluzia ao olhar
Mas nem assim fez-se pronto,
Pôs-se a roer toda mente
E quando nada restou, aparente
Roeu toda a alma em escárnio.
Restou somente o ímpio rosário
Com suas pobres ave-marias...
E assim como veio partiu,
Partindo o que veio ao pedaços,
Não foi mais que um estilhaço
No grande espelho da vida.
Refletiu o mundo ao inverso
Voraz, inquieto, incessante
Preso num ponto em estanque
Mas suspenso nas cordas dos versos.
Retalhos
Sublima aos céus teu calor
Na forma de todo meu gozo
E nem bem sei se ouso
Esvair-me em sublime torpor.
O anjo torto já cantava
Com a doce voz de sua lira
Uma lavra de mágoa, riso e ira
E eu, perdido, sem mais, me despira
Na pele rasgada de amor.
Fez-se como fogo fátuo
Espontâneo, ligeiro e fino
Iluminou num flash o destino,
Findou-se numa encruzilhada.
E o corpo sem sentir mais nada,
E a mente, ainda aturdida
Na ausência de toda e qualquer medida,
Perdeu-se a cada vã arfada...
Se um dia me encontrares,
Não hesita,
Salvai-me dos grossos pesares
Que encerram minh'alma aturdida
Num eterno frenesi de olhares.
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