domingo, 13 de novembro de 2011

Aflorar

O salitre volátil entre veias
Perfuma, o corpo, a história
Invade poros, porões, pormenores
Dispara a mente em certeza
O peito explode em vontade
E esse vai e vem encrispante,
Ondas num mar de suspiros.

Hálito quente na noite gelada
Hausto profundo a cada arfada
Os olhos vazios, perolados no espaço
Os astros febris, a pele em farrapos
Tudo num único ponto
Um único ponto em tudo
Nada mais é.

Curva de possibilidades,
Curva do ser em meus dedos
Curvados no ser de minha alma.
Dois já não mais se completam
Pois já não existem no espaço
Só o momento persiste, fraqueja, instável.

E tudo mais foi.
Num contrair de pálpebras
Num toque, leve, denso, profundo
Num olhar tão breve e selante
No giro profano do mundo...

sábado, 12 de novembro de 2011

Conclave

Não mais deveis cantar o velho hino
De uma bandeira rota e maculada
Não mais deveis curvar-vos ao destino
Em prece, em prantos, de mãos atadas.

Cortai as grossas vendas sussurrantes
Nos gritos que laceram vossa calma
Clamai por Orwell, Tolstói, Dantès
Adormecidos na omissão de cada alma.

E quando o baladar do novo sino
A sina vos trazeis em vã arfada
Erguei irmãos meus, nos dedos finos
A liberdade, sanguínea, assinalada.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Serpente

Entre as tortuosas curvas da mente,
Nos sibilos hostis de teu canto
Senti em meu peito o encanto
Do sinuoso olhar da serpente.

E na lascívia bífida, estridente
No olhar fendado, vestido de santo
Pungiu-me em seu bote inteiro e tanto
Que minh'alma banhou em peçonha ardente.

Cingiu-me num último aperto escamoso
E em meio ao torpor, no doce luar
Soltou-me veloz entre o choro e o gozo.

Lágrima a lágrima secou-se o pesar
Descamando o corpo de um trapo trevoso,
(Re)Vestindo a carne na pele do amar.