sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Concerto - Overture

É difícil segurar as cousas dentro dessa caixa ressonante
Essa mente fervilhante...
Esse peito desatado, esfarelado de pulsar!
E eu giro, me envolvo, me seduzo,
Num jogo pérfido, incômodo, num teatro de meu lar.

Sopra três vezes o desejo,
Não sorvo nenhum de seus intentos
Mas por dentro, tento...
Desatino, descabido, desatento
Nesse corpo, nesse templo
Perdido ao luar...

São os olhos estreitos,
O rosto esculpido,
O silêncio enclausurante,
Meu semblante perdido
Sem peso, a orbitar...

E é tanta palavra,
São tantos léxicos,
Tanta dança, conversa, magia
Que a vida grita em euforia:
Deixe-me passar!

Mas eu não deixo!
E mesmo assim a danada passa,
Atropela em desatino,
Desenrola  em descontrole
Meu destino ao Deus dará.

Mas não deixo!
Ardo internamente cada palavra,
Transgrido animalesco em meu vácuo
Acendo somente em fogo-fátuo.
Crio paredes maiores do que qualquer engenheiro
E vanglorio-me: sou inteiro
Enquanto ruem as fundações,
Tão bem arquitetadas,
De tal modo encadeadas,
Que enclausuram esse peito,
Oscilante a agonizar...

E não há, assim, melhor Vendetta
Que implodir o parlamento
Que se julga tão atento,
Entregar suas ruínas,
Às raízes clandestinas
De uma rosa vigorosa,
Já eufórica, claustrofóbica,
Já cansada de esperar.